Olá! Este post é continuação da série Personalidades Importantes da Música Árabe.

Confira também o artigo que escrevi sobre a Om Kalthoum para o site Central Dança do Ventre.

Você certamente já se deparou com canções dela. Clássicos como “Alf Leyla wa Leila” (“mil e uma noites“), “Fakarouni” (“pense em mim“) e “Leilet Hob” (“noite de amor“) são ouvidas à exaustão em inúmeras versões e arranjos.

Seus shows duravam de três a quatro horas, durante as quais eram cantadas duas ou três canções. As músicas que dançamos hoje que foram gravadas por ela são versões modernas e “resumidas” das composições, adaptadas para a dança oriental e arranjadas de forma a evidenciar mais os instrumentos de percussão.

Como descrever em apenas um post esta personalidade que mesmo quem mal conhece, considera pacas? Vamos por partes.

Afinal, como escrever seu nome?

Seu nome em árabe, أم كلثوم , possibilita muitas formas de transliteração para o alfabeto latino. O primeiro nome, Om/Umm/Oumme, significa “mãe”, e sua grafia depende apenas do idioma para o qual se está transliterando, já que as vogais sofrem muitas variações regionais de pronúncia e são apenas três, enquanto nosso alfabeto tem cinco.

Seu segundo nome, em árabe clássico, é pronunciado como “Kalthum”, lendo-se o “th” como lemos em inglês. Em alguns dialetos coloquiais de árabe, no entanto, lê-se o “th” como nosso “ss”. Por isso “Kalthum”, “Kulthum”, “Kalssum” e outras grafias frequentemente utilizadas estão igualmente corretas. Não podemos, contudo, trocar o “M” por “N”, já que para um falante de árabe estes fonemas são completamente diferentes. Tecnicamente, poderíamos escrever em português “Om Calssum”. Mas não vamos complicar.

Estrela do Oriente

Esta é a forma como Om Kalhtoum é apelidada nos países árabes. Ela teve relação próxima com a família real (recebeu uma condecoração, chamada “Nishan el Kamal“, exclusiva para membros da corte e políticos, do penúltimo rei egípcio Faruk I) e do presidente egípcio Gamal Abdel Nasser.

Om Kalthoum em uma de suas performances

Personalidades ocidentais como Jean-Paul Sartre, Salvador Dalí, Maria Callas, Jean Michel Jarre e Charles de Gaulle a elogiaram publicamente. Robert Plant (vocalista da banda britânica Led Zeppelin) declarou, após sua visita ao Marrocos em 1970:

“O modo que ela cantava, a forma como ela segurava uma nota, você podia sentir a tensão. Você poderia dizer que todos, toda a orquestra, sustentariam a nota até o momento em que ela quisesse parar. Quando ouvi pela primeira vez a forma como ela dançava pelas escalas para então pousar sobre uma nota tão linda que eu sequer poderia imaginar cantar, aquilo era grandioso. Alguém criou um buraco no meu muro de compreensão sobre vocais.”

Quem foi esta mulher, tão universalmente apreciada e tão genuinamente árabe ao mesmo tempo?

Om Kalthoum, nome artístico de Fatima Ibrahim as-Sayyid al-Biltaji, nasceu em data desconhecida em El Senbellawein, ao norte do Egito, e começou a cantar ainda criança, recitando o Corão e chamando os fiés para a reza, vestida como homem, incentivada por seu pai, que era imam (líder religioso especializado no Corão).

O pai a incentivaria em sua carreira artística por mais muitos anos, tanto contratando professores de música quanto acompanhando-a em seus primeiros shows, mesmo conhecendo o preconceito que os egípcios tinham (e têm) com profissionais da arte.

Aos 16 anos conheceu Abol Ela Mohamed, que a ensinou o repertório árabe clássico, e alguns anos depois viria a conhecer Zakaryya Ahmad, alaudista e compositor de clássicos como “Ana Fi Intizarak” (“espero por você“).

Na década de 20, mudou-se com sua família para o Cairo e lá conheceu o poeta Ahmad Rami, que escreveu nada menos que 137 letras de músicas para ela, entre as quais destaco aqui “Hayart Albi” (“você confundiu meu coração“), cuja melodia foi composta por Riad al-Sonbati.

Nas décadas de 20 e 30, Om Kalthoum gravou diversas canções do alaúdista egípcio Mohammed el Qasabg, incorporando em seus concertos o conceito ocidental de harmonia, através da utilização de acordes, além de instrumentos como o violoncelo e o contrabaixo, de origem européia. Durante os anos 40, cantou músicas religiosas compostas por Sonbati, desta vez com letras escritas pelo “Príncipe dos Poetas” egípcio Ahmed Shawqi.

Em 1950, cantou a tradução árabe dos Rubaiyat do poeta persa Omar Khayyam, datados do século XI, que anos antes inspiraram nosso poeta luso Fernando Pessoa. Poucos anos depois, passou a interpretar músicas do compositor Baligh Hamdi, homenageado pelo Almanack aqui, entre elas o clássico “Baed Annak” (“longe de você”).

Nos anos 60, finalmente, passa a trabalhar com o autor de alguns de seus maiores clássicos: Mohammed Abdel Wahab. Em sua primeira parceria, patrocinada pelo então presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, Abdel Wahab compôs uma das canções mais conhecidas e choradas do mundo árabe, “Enta Omri” (“você é minha vida”), e outros clássicos como “Amal Hayati” (“Esperança da minha vida“) ambas com letras escritas por Ahmad Shafiq Kamil.

Quando ela faleceu, seu funeral foi adiado em dois dias para poder receber e comportar fãs vindos de diversos países árabes. Om Kalthoum é até hoje a cantora mais conhecida e referenciada do mundo árabe.

Espero que tenham gostado e aprendido um pouco mais sobre esta personalidade fantástica.

Abraço forte!
Rebeca

Fontes

Personalidades Importantes da Música Árabe- Parte III: Om Kalthoum by Rebeca Bayeh is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International License.