Líbano: por que estudá-lo?
Este texto foi adaptado do meu artigo publicado na edição 37 da Revista Shimmie.
É indiscutível que o pólo mundial da dança do ventre é e sempre foi o Egito. Mas sabemos que o mundo árabe é muito grande – são 22 países e cerca de 422 milhões de pessoas, mais de duas vezes a população brasileira.
Dentre estes países, existe um pequeno notável à beira do Mar Mediterrâneo, o Líbano. Ele foi berço da Civilização Fenícia, criadora do alfabeto fonético que posteriormente originaria alfabetos como o árabe, hebraico e grego (que por sua vez originou o latino, que você está lendo neste momento) e já foi administrado e ocupado por assírios, babilônios, persas, gregos, romanos, sassânidas, árabes e, mais recentemente, por otomanos e franceses.
Hoje em dia o Líbano é considerado um país árabe e, mais que isso, é apelidado de “Suíça do Oriente” por ser um pólo econômico e turístico.
A maior comunidade diaspórica libanesa do globo é a nossa, a brasileira. A história das relações entre o Brasil e o Líbano é mais antiga que a Diáspora Libanesa, e teve início no Brasil Imperial, e algumas estimativas dizem que mais de 7 milhões de libaneses e descendentes – mais do que a população atual do Líbano! – ou seja, a cada 50 pessoas que você conhece, aproximadamente 2 podem ter alguma ascendência libanesa.
Não é de se estranhar, portanto, que haja influência libanesa no cenário de dança do ventre do Brasil. Muitas bailarinas, professores e músicos das primeiras gerações do nosso mercado são libaneses e trouxeram consigo o “tempero” libanês de arte. O mesmo aconteceu nos demais países da América Latina, em especial na Argentina (onde vivem hoje mais de 1,5 milhões de libaneses).
Além disso, muitas das músicas que adoramos dançar são cantadas por libaneses. Dentre uma lista imensa de artistas, destacam-se Wael Kfoury, George Wassouf, Wael Jassar, Nancy Ajram, Haifa Wehbe, Dominique Hourani, Ragheb Aleime, Elissa e Ramy Ayash.
Quem aprecia o estilo “golden age” certamente conhece também a Fairouz, os Irmãos Rahbani, o Melhem Barakat, o Sammy Clark, a Majida el Roumi e a Sabah.
Por último e não menos importante, no Brasil, a dança folclórica árabe mais conhecida no Brasil é o Dabke. Isso acontece porque as colônias libanesa e síria (que têm o Dabke como dança nacional junto a outros países do Levante) ainda o praticam em festas de aniversário, noivado e casamento, mantendo a tradição viva e agregando aos brasileiros toda a alegria e energia desta modalidade. Algumas referências de músicas contemporâneas para Dabke libanês e sírio são Feres Karam, Najwa Karam, Ali el Deek, Anas Kareem Tony Kiwan e Marwan Chami.
Nosso cenário é hoje uma mistura deliciosa da influência destes grupos, de outras comunidades árabes (como a egípcia, a palestina e a iraquiana), das trocas de experiência entre bailarinas profissionais do mundo todo e da cultura brasileira. O estudo específico de cada país ajuda, portanto, a entender os motivos de sermos como somos e desenvolver nosso próprio estilo de dança a partir daí.
Além disso, esta pesquisa nos ajuda a entender as particularidades de cada país do Oriente Médio e, ao performar danças folclóricas, construir coreografias e figurinos da forma mais fiel possível, homenageando no palco povos que estão tão longe e, ao mesmo tempo, tão perto!
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