Olá e bem-vind@s de volta!

Após um longo inverno, o Almanack está de volta! E está de volta com tudo, dando continuidade à série “Personalidades Importantes da Música Árabe“, desta vez homenageando a Warda al Jazairia. Nas palavras do presidente do Conselho Nacional de Artes da Argélia, Abdelkhader Bendamache:

Warda foi uma gênia, dessas que aparecem todo século. Como houve Oum Kalthoum, agora há Warda. Ela é importante por ter conseguido criar uma ligação entre o oriente e o Magrebe.

Nascida na França em 1939, Warda Ftouki era filha de um argelino com uma libanesa. Seu pai, dono do Café Tamtam, estimulou seu talento para a música desde cedo, convidando-a para cantar aos 11 anos em seu estabelecimento. Warda cantava músicas patrióticas argelinas e covers de grandes nomes que já estavam em alta no Oriente Médio, como Om Kalthoum, Mohamed Abdel Wahab, Farid el Atrash e Abdel Halim Hafez. Um produtor de rádio apreciou seu trabalho, o que abriu as portas para que ela se popularizasse como cantora na região do Magrebe (países árabes no Noroeste africano, incluindo Argélia, Marrocos, Líbia e Tunísia).

Em 1952, contudo, seu pai foi acusado de armazenar armas em seu estabelecimento, em apoio à Frente Nacional de Libertação (FNL), movimento argelino pela independência da Argélia com relação à França, que ocupava o país, outrora sob domínio otomano, desde 1830, e cuja colonização provocava revolta em boa parte da população argelina, dadas as desigualdades com que a colônia e a capital eram tratadas e, muitas vezes, em resistência à ocupação de uma força colonizadora incompatível com a Sharia (lei islâmica), considerada por muitos apostasia (abandono da fé islâmica). A Guerra da Argélia, desenvolvida entre 1954 e 1962, resultaria na independência da Argélia e dezenas de milhares de mortos franceses e argelinos (muitos dos quais assassinados por apoiarem o regime colonial).

Após a acusação, a família de Warda foge para o Líbano, terra natal de sua mãe, e passa a residir em Beirute, no bairro de Hamra, onde Warda prossegue cantando em cafés. Ela é então apreciada por Abdel Wahab, que a convida para ir ao Cairo. Warda é bem recebida, recebe cidadania egípcia, canta em parceria com grandes compositores como Riad al Sunbati e, a convite do então presidente Gamal Abdel Nasser (o mesmo que fomentou a parceria entre Om Kalthoum e Abdel Wahab), canta junto a Abdel Wahab, Abdel Halim, Sabah, Shadia e Najat a canção nacionalista pan-arabista “Al Watan al Akbar” (a maior nação), composta por Abdel Wahab. Nesta época, Warda passa a adotar o nome artístico Warda al Jazayria, que significa literalmente “Rosa Argelina”.


Abdel Halim, Shadia, Warda, Najat el Saghira e Abdel Wahab cantando a canção nacionalista pan-arabista “Al Watan al Akbar”.

Após o fim da Guerra da Argélia, Warda vai pela primeira vez à sua terra e casa-se com um argelino, casamento do qual nasceriam um filho e uma filha. Seu marido a impede de cantar, afirmando que ela deveria priorizar a família. Após dez anos de silêncio, os quais a cantora lamenta ao dizer “preciso cantar tanto quanto qualquer pessoa precisa respirar”, Warda é convidada pelo então presidente argelino a cantar durante as celebrações do décimo aniversário da independência da Argélia.

O aceite levaria a um divórcio amigável e, desde então, Warda volta a ser sucesso em todo o mundo árabe e passa a gravar entre quatro e cinco discos por ano, mudando-se novamente para o Egito, onde casaria com o grande compositor egípio Baligh Hamdi, então divorciado da cantora libanesa Sabah. Baligh (leia meu artigo sobre ele aqui) compôs grandes clássicos para Om Kalthoum (dentre os quais Alf Leyla w Leyla, Baed Annak, El Hob Kollo), Sabah (Zay el Assal) e Warda (Esmaouni, Khalik Henna, Wahashtony, Hykayti Maa el Zaman, El Oyoun Soud).

Warda cantando com seu marido, o compositor Baligh Hamdi, “El Oyoun Soud” (olhos negros).
Link: http://www.dailymotion.com/video/xc8wi5

A cantora era também era versada em diversos folclores de todo o Magrebe, do Líbano, do Egito e da Península Arábica, e foi conhecida por fazer a ligação entre o Magrebe e o restante do mundo árabe. Uma das gravações mais famosas da música “khaleege” tradicional Magadir foi feita pela cantora, e suas músicas são ouvidas amplamente por todo o mundo árabe até hoje, em especial após o início da Primavera Árabe, em 2011. Warda gravou mais de 300 músicas e vendeu mais de 100 milhões de álbuns durante sua carreira.

Diversas vezes, a contora foi comparada a Om Kalthoum ou vista como sua sucessora, título que recusou ao afirmar “eu a respeito muito, mas não quero ser igual. Quero ser eu mesma”. Seu último show foi realizado em Beirute, e seu último hit, “Eyyam” (os dias), foi lançado postumamente em 2013. Warda faleceu em 2012, no Egito, e após o velório seu corpo foi repatriado para a Argélia, onde recebeu homenagens emocionadas e comoventes. Warda é considerada um símbolo da emancipação feminina na Argélia.

Clip de “Ayyam”, gravado na Argélia e lançado postumamente.

Fontes: The Guardian, RFI Afrique, site oficial Warda Online, Wikipedia, acessados em julho de 2017.

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